segunda-feira, 21 de julho de 2014

Como um pássaro


Se nas minhas verdades arremato um sonho pra fantasiar
A Luz que se espalhou em mim faz revelar o que o meu peito um dia calou
Mas penso que sou um pássaro que chora de tanto voar
Se às vezes sou triste é de tanto amor

Não saio mais de perto de um olhar que quer me contar uma nova história
Será que terei coragem de me render ou me perder?
A calma me lembra um conto pra nunca esquecer

Pra onde foi a dor que de tanta dor se esvaiu em vão?
Pra onde foi a flor de mãe que um dia falhou?
Pra onde foi o verso que faz sossegar?
Pra onde foi a ternura que um dia meu coração já cuidou?

Nada sei sobre as linhas que o destino vai costurar

Mas vou seguindo frágil de tanta firmeza
Paro e ouço conversas que clareiam o caminho
Pra desenhar o meu chão feito criança feliz na areia


Mas penso que sou como um pássaro que voa pra não chorar






Viver é sentir a dor e  a alegria de mãos dadas dentro do peito.


sábado, 12 de julho de 2014

redemoinho


Aí perdi a chave no limite do limite do esgotamento, perdi a chave, ou esqueci a chave em algum buraco negro da dispersão ao enganar o próprio corpo, ao mentir sobre o cansaço, ilusão sobre as tarefas, aí engulo sapos para não soltar os bichos, mas passo mal, não escapo da roda toda,  do julgamento sob todos os olhos e pensamentos e todos viramos animais no reino da competição.  Aí me olho no espelho infinitas vezes para confirmar se ainda estou ali, e semi-estou, meio sexy acabada, e me pergunto se dou conta de mim, mas não dou conta muito menos de mim, e na chuva para tudo, a chuva, ainda penso se outros também vivem nostalgias e se ainda sentem, mas esquece, eu me desafio e sou desafiada, jogo tetris na madrugada e moribunda curto a vida dos outros, sem forças para dormir, rompo o espaço-tempo com o desejo e a preguices da hora, amanha durmo até o anoitecer, mas não posso, porque a roda ta girando rápido demais e eu tenho que fazer parar alguma hora, se ainda estou ali, mas não estou, e cheia de conflitos e a cada segundo mudando de ideia, não pego o metrô, não entro no vagão, dou meia volta e saio correndo na chuva atrás de mim, o transito parado, o Rio em água, eu corro e penso e como todas as besteiras para me ocupar de prazer. E crio, crio, crio até mais não saber criar. E digo sim, para não. Sim para os atrasos de contas que crescem e retornam e voltam e eu trabalho, trabalho e rio, viro a transgressão  do impossível e retorno e não sinto mais culpa da confusão que faço por querer  abraçar tudo para não sucumbir a solidão e ao vazio de não saber como dar os passos. Aí perco a chave de casa e pago o chaveiro, pago caro para 3 segundos de trabalho fácil, pago caro por estar cansada, só para entrar na paz do lar e me atirar no sofá, e não conseguir dormir . Aí perco a chave  me mantendo em  serenidade, me surpreendo comigo, desespero não. Ando em meio a todos os argentinos do mundo nas ruas de Copacabana. Eles querem festa, gol, eu só quero entrar em casa e vou atrás de um chaveiro 24 horas. Ele aparece, mas quer dinheiro, caixa eletrônico 24 horas, dinheiro, casa, chuva, sofá, cama. A minha casa agora é ouro. Ele se vai e eu me perco mais, eu estou no sofá, além mar. Só quero me divertir e ver o redominho passar. Quero sentir o redemoinho do meu sangue e minha mente acalmar. Sem fim...

domingo, 29 de junho de 2014

Mais que a lua







Hoje acordei a fim de ser eu mesma, a eu mesma que seja eu, mas que eu não seja a mesma de ontem. O que de mim gera no mundo, não sei. Me interessa o que o mundo gera em mim. Portanto deixo os cálculos para os matemáticos e os terapeutas.  Que se nascemos para morrer, melhor morrer de errância que a coragem de não ser quem somos. Pois que para fingir quem não somos tem que se ter mesmo é coragem.
Só sei que agora a primavera cabe dentro de mim, e o verão, outono, inverno também. Já não me pesam os pensamentos, deles fiz um conto, e no conto, recortes do não dito. 
Me lanço numa enseada de luz desocupada de domingueira. Nessa tarde de tudo, vou empobrecendo de palavras enquanto as deposito aqui.  Traio o papel e o lápis com letras digitais, virtuais, para me enganar com a simples ausência dessa proesia. 
Penso em Manoel de Barros, tão ele mesmo que me faz lembrar  o quanto as cigarras se alfabetizam com o silêncio.
Sou agora, então uma cigarra, aprendendo as vogais da palavra "silencio" que nesse momento completa tantos sentidos de minha vida.
E o grande poeta ensina que enquanto aqui divago, formigas transportam infinitamente a terra.
Estarão engolindo o mundo?
Surpreendida estou com a simplicidade ao mesmo tempo que peno para entender as poesias.
Vou sair e ver o que tanto se parece com o amanhecer: o por do sol, meu melhor amigo. Depois, angustio vendo a noite ascender o escuro. 
Tudo semelha tudo.
Só a coruja atrapalha a eternidade.
Lembrei de amores que viraram a lua cheia quando a olho despercebida.
A saudade sou eu mais que a lua.

E agora só penso no desfuturo.
Hoje acordei eu mesma.

quarta-feira, 25 de junho de 2014

como quente para gélido



Não me interessam os corações de gelo
Esses batem cinza e fecham as janelas
Nasci para a cor vermelha e o céu azul turquesa
E por mais que me digam "calma"
Não deixarei que as pontadas iminentes de adrenalina
- Que me acordam alucinada na manhã
Essa manhã que se eu não tiver nada para fazer, penso que vou morrer de possibilidades -
Não parem de sentir o sangue correr nas veias entre dores e prazeres de existir

Não entenderei jamais a frieza das almas
Ficarei sempre triste com a falta de amor de todas as formas que ele é.
Mas nem por isso vou desandar ou olhar pra trás
Inventei uma religião e vou  explana-la errante nas madrugadas
Sem medo de panfletar palavras simples pra descomplicar os sentimentos

A maior violência humana é a indiferença
Ela faz chorar por dentro 
E a cada gota, um sorriso por fora pra disfarçar a incompreensão  
São os mundos internos que precisam de atenção.

Mas que as curas estão à espera, invisíveis, em esquinas solitárias
E quem percebe-las, saberá o que significa  de verdade 
a palavra "quente."






segunda-feira, 23 de junho de 2014

F!

Lá fora as buzinas de uma vitória
Futebol, palco teatral de todas as nações
O melhor público a mais pulsante plateia
É carnaval e reveillon ao mesmo tempo
Mas vibro mínimo
Não entendo a festa
A consciencia é a maior inimiga da alegria
Gosto de ver os pequenos povos ganharem
Jogos humildes sem pretensões
Como o bar da cidade pequena
Da roça, ventinho, carroça
Aqui tudo tem tom de mentira
Nao só porque do outro lado da cidade
Tem gente largando filhos nas ruas por falta de opção
Também porque aqui em baixo da janela
Tem mendigo com frio pedindo cobertor
Enquanto dentro das casas, pessoas se abraçam no gol
Eu desço com vontade de abraçar o mendigo
Não de gol, mas de ternura.
Porque hoje estou mais pra filme da Disney que Godard
Ele pode estranhar, o mendigo
E eu posso ficar com medo de burguesa na redoma
Então apenas dou um casaco antigo
Enquanto o jogo corre
E eu penso dane-se, foda-se o jogo.
Mais amor, menos hipocrisia
Mais calor, menos fogos de artifício
Mais, mais, mais...










quinta-feira, 19 de junho de 2014

E quantos territórios inacabados existem escondido nas esquinas da cidade?



Porque não se trata disso.
Estamos falando de um lugar em construção.
Uma terra lentamente cultivada
E o que se faz com o terreno abandonado no meio da obra?
Pra onde vão as palavras ali deixadas?
E quantos territórios inacabados existem escondidos nas esquinas da cidade? 


sexta-feira, 13 de junho de 2014

noite adentro


Escrevo desvairadamente aqui 
Pois toda necessidade invisível impalpável se converte em escritos
Que só estão aqui presentes para os que espíritos dessa lua cheia não me matem de dentro pra fora
Escrevo aqui
Pra acalmar meus limites físicos que lutam com a  vontade
De viver tudo em cada parte e não perder nada de nada de nada
Escrevo
Para dominar a ansiedade angustiada de evocar os deuses de todos os tempos
E lhes possuir, os deuses, com suas quimeras mais que humanas
Desvairadamente
Para parabenizar essa música que me inspira
Essa musica que toca louca e delicada no meu som
No meu palacito burguês de ouro 
Que me protege dos males neuróticos do mundo a fora
Aqui
Para dormir culpada e acordar inocente
Parar deixar de fingir desapego
Deixar de fingir
E deixar e deixar e deixar
para salvar as palavras de um programa de computador
Que pode falhar mais que eu em toda a minha vida
Escrevo desvairadamente aqui 
Para voar longe, me atirando em sonhos
Sem fechar os olhos.









O silêncio que ficou
Faz a minha voz cantar
Pra se perder no caminho
O que não consegui falar



quarta-feira, 11 de junho de 2014

frisson


Flecha aguda que rompe o espaço e corta ventos
A dores não sessam nem quando o tudo ocupa todo o tempo
Porque a carne é feita de veia e sangue que corre desvairado
E o coração humano bate e reage ao pulso do sentimento

Louco louco é o desalento, a covardia dos mudos faladores
A restrição que dói corroi por dentro
Pra seguir em turvas curvas, passos lentos
A incompreensão libertadora do entendimento

sábado, 7 de junho de 2014

Desalinha

Quando a manhã vinha eu teimava
Em acordar pra um outro dia
O lençol caia e eu chorava
Para não pensar no que sentia
Mas olhando o sol me acalmava
E o meu sorriso se abria

Quando a tarde vinha eu vibrava
Toda a solidão me esquecia
E o cafezinho que faltava
Esquentava o nó da nostalgia 
Lá fora tudo me lembrava
Que o mundo é cor e poesia

Mal a noite vinha eu cantava
E o céu fazia a melodia
Tão profunda estrela que brilhava
Me dava o amor que eu não tinha
O fogo de mansinho delirava
E a prontidão do sonho desalinha.





quarta-feira, 4 de junho de 2014


Posso viver sem a técnica
Mas morreria sem a paixão
Não quero ser poeta
E sim a inspiração

sem o Kê





Algo me falta.
Como a letra nesse teclado.
E nós dois insistimos na errância.
Já ...ue sem a falta seríamos nauseados
De tudo








amor platônico


Eu já te disse uma vez, mas passou despercebido
porque com você, eu sou eternamente tímida
É só uma maneira de disfarçar minha insegurança
tamanho pequena me sinto com sua intensidade
Te admiro de longe, feito aluna e professor de ensino médio

Você me inspira. Isso já é lindo
A inspiração quando vem de outro ser
É  gol da existência
Eu te agradeço sempre em silêncio
Passamos a tarde juntos sem você  saber
E foi incrível, você me estimulou e eu criei coragem
Porque adoro a maneira como você expõe sua carne frágil que te torna rei, 
É a mais pura generosidade dos que sabem que vão morrer
Eu me assumo em você sem fazer esforço.
Você é a minha pólvora silenciosa dentro de mim.
Eu já te disse uma vez, mas passou despercebido






terça-feira, 3 de junho de 2014

caminhanças

Fechar o próprio ciclo
Regenerar
Agradecer à vida pelos los encuentros
Ser destemido
E brilhar os olhos
Quando o fato
Te faz perceber
O quanto é bom
Viver e se deixar viver
Sem nem tudo entender
Pra transcender
E crescer

domingo, 1 de junho de 2014

perpetua

Eu sei que viver é saber não controlar
Esse rio que corre
Porque se os olhos vissem o que há na frente
Saberia eu mesmo ler?
E como, senhor, enlaçar o medo de acordar?
Como enlaçar a dor
De uma solidão em meio a multidão?
Pois se o coração é mole, a pele é armadura
Deixo ser as experiências alheias
Matérias de minhas escrituras
É o afeto que me afeta e me perpetua




sexta-feira, 30 de maio de 2014

vagueio


Rasgo invisível da pele
Me perdi em fantasia
Olhos que vagueiam
Em meio a rua fria

Sonhei com a saudade

Pensei que era pedra
Mas a pedra é o que me guia
Cai dos meus olhos um pingo de água nela
Sou mesmo é poesia

Sonhei com a saudade
Ela
Me escrevia
Me sentia
Me possuía

Resgato a coragem
Pra te dizer
Que não posso me matar
Antes de morrer




sábado, 17 de maio de 2014

impressões de um caminho





PARTIDA

I
Era lua cheia quando sorriu por estar se permitindo.

II
A mochila cai enquanto pega o caderninho. E enquanto pega a mochila, cai o travesseiro junto com o papel de turista. Ao pegar, esbarra na moça do lado que nunca ouviu falar em simpatia. Não sabe se guarda a mochila, receio de ter que pegar toda hora a alguma coisa inútil. Mas guarda. E se arrepende. A moça ao lado dorme e não vai querer dar passagem. Tudo bem, a vista tá linda. Aqui em cima é verão, embaixo correntezas de rios desenham a terra. A mulher ao lado é escritora. Tento enxergar o que ela escreve. Não é poesia, não é ficção. Mas escreve tanto que tomei pra mim como um desafio. Ela nunca saberá. Estou realmente bem. Cansada. Acho que não dormi mais que 3 horas durante dois dias. A viagem é longa. Etapas, espera. Prazerosa solidão. Tava chovendo no ônibus. A janela da madrugada mostrava manchas de luzes das ruas. E a musica do rádio, a fazia fantasiar peculiaridades deliciosamente proibidas. Sem sono, foi até o ponto final.  Agora do céu, impossível ignorar o verão lá fora. O funcionário da Cia. Aérea já foi de trem para a Bolívia e de barco de Rondônia para a Colômbia.  Rápida conversa em meio ao check in. Ele deu a janela que tem a visão da Cordilheira dos Andes.
Força da pedra que brota
E pulsa na cabeça mansa
Germina nos olhos
Apagados
Muda a luz branca do avião.
O aeroporto dessa vez não a inquietou.

III
Viva Neruda!

 LIMA

I
Caminhar e me misturar na cidade, na praça.
E agora não pertenço a lugar nenhum.
O que me comove são os detalhes
Dessa cidade que foi construída em cima de outra
Me olho e não me reconheço mais
Mudei de roupa.

II
No museu leio uma frase que me remete a que não consegui falar no recente passado. Saio totalmente do presente. Meus olhos desfocam por uma eternidade. Meu corpo eletriza. E o que me traz de volta é a tosse de um senhor que  a tosse é o mesmo que pedir para sair da frente do quadro que quase virou meu por usucapião. Continuo a expedição. Hoje estou arqueóloga.

III O Templo

Tempo e espaço é o cosmo
O cosmo é o todo
E o todo é
Tu mesmo




IV TPM

Preciso sair daqui!
Preciso chegar no hotel!
Estou exausta!
Agora tenho 5 anos e bato o pé no chão fazendo pirraça.
A van parada no transito me mata
Eu, monstro, preciso sair.
E saio!
O caminho e me acalma
O tradicional churros de 1968 é meu remédio, minha transgressão.
Chego aliviada.
Depois vem a culpa.
E eu mesma, o padre, me dou a redenção.

V Presença ausente de Morena

Cláudia e Tina (o nome dela não é Tina, eu esqueci) são doces, inteligentes e generosas. Me buscaram no hotel e fomos passear pelas galerias de artes, que curiosamente, todas, estavam expondo fotos de Machu Pichu. Disse que foi por minha causa. Elas riram e ali, ficamos amigas. Claudia e Tina são lindas. Tina é andina, nasceu em puno, 3800 metros de altitude. Traços fortes, inca, índia. Ri como uma criança, um sorriso genuíno de felicidade. Como se saísse de dentro de uma tela de um filme latino. Claudia tem o olhar de quem lê muito. Inteligente e um pouco sofrida (eu deduzi). Grande olhos amendoados. E eu, a gringa, que apesar de brasileira me acham italiana, fiquei toda boba a lado delas. Amigas de Lima. No restaurante rimos. Mulheres cúmplices em qualquer lugar do mundo.
E com a gente, Morena. Na presença ausente da amiga que nos apresentou, brindamos. As quatro.
Sonhei muito essa noite.



PUNO

I
No sonho eu pergunto para Morena
Onde estamos?
Subitamente abro os olhos.


No céu.

II
Giane, o recepcionista, na despedida no aeroporto de Lima:
Renata, a única coisa que você precisa na sua caminhada é o pensamento postivo.


O que precisamos na nossa caminhada: O pensamento positivo.


Aide, a recepcionista de Puno: Renata, na caminhada, esquece a dor.

Conclusão

Giane + Aide = na caminhada esquece a dor e pensa positivo.

Renata: Amém!


Impressões no aeroporto de Juliaca

A calma
A força
A plenitude
Meu corpo nasceu na cidade
Mas é da Serra a minha alma.

II Oxigênio

3800 metros de altitude
Pensamento positivo
Comigo não
Não vou sucumbir
Mas como?
Dor de cabeça começa
Me falta oxigênio
Folha de coca
A cidade é linda e confusa
Muita informação
Estou fascinadas com as Chollas
As cores.
Aos poucos vou virando andina
Um chale, um gorro, uma bolsa, um sombrerito vermelho
Vermelho!
Aos poucos viro andina
Caminho e me misturo
Não posso andar muito
Me falta ar
Passo numa escola
Mulheres andinas e crianças jogam bola
Como conseguem?


Me sinto uma senhora de 100 anos
Preciso voltar
Sopa de quinoa
No hotel, um problema de trabalho
Daqui, sem oxigênio o problema se torna maior
O sofrimento da falta de ar potencializa tudo
Mas preciso me colocar
Quando nasci de verdade, dei a cara a tapa
Quando dei a cara a tapa, nasci de verdade
Me coloco com delicadeza.
As recepcionistas falam lento e calmo
Todos são um pouco assim
Aprendo com elas
E é difícil dormir sem ar
Acho que vou morrer
Mas sonho
Demais.

III Místico.

Quatro mundos incas se mostram na minha frente
O debaixo da terra, o mundo que vivemos, o mundo espiritual e o mundo dos mortos
Pelas ilhas de Uros eu navego.
Em meio a todos descalças, não posso usar sapato
Os pés livres me conectam com a palha
Eles se auto sustentam e vivem de arte
Comprei um artesanato
Sobre os 4 mundos místicos
Ainda sinto muita dor de cabeça
Mas  a desafio, luto contra, não vou deixa-la estragar meu dia
Que está lindo
Seco e belo
O lago Titicaca é um poço de lendas e histórias
Lo hombre pergunta-me: chica estás sola?
Que pergunta!
Estou com um mundo de gente que amo na minha atmosfera
Estou com todas as pessoas que eu sou ao mesmo tempo
Estou com medo e coragem e dor e alegria
Estou tão eu e tão não eu... E tanta... coisa...
Não estoy sola, ahora estoy com usted, compreende?
Sí, compreendo.
O hombre disse sí, comprrendo
E eu não o compreendi por um momento
Mas se estamos num lago místico
Sí, compreendo.


XIV O mundo dos mortos

E nas Chulpas sagradas me curei
A dor de cabeça passou ao começar a caminhar
Ali se enterraram os xamânicos, os sábios, sacerdotes...
De tempo pré inca...
E com eles vão seus objetos e pessoas queridas, que e pra quando retornarem ao mundo, encontrarem o que mais querem
E o vento, a paisagem, a conversa com a doce Mariangela
Curam
Me sensibilizo
Adormecidos despertam do mundo dos mortos
Despertam em mim
Não a toa
Do mundo dos mortos
Eu revivo a morte
Sinto toda a força dela
Choro
E a desafio
Não vou deixa-la ganhar
Já venci
Expulso-a de mim
Depois
Caminho
Devagar

xv
E no caminho, uma casita
Uma família que se auto sustenta me acolhe
Como papas cozidas
Me contam histórias
Eu conto histórias
A dor passou

Já sou daqui


ESTRADA






I
Parti me jogando na estrada
Pisando com passos tão fundos
Andei até outras moradas
Enquanto o amor despertava
Me vi do outro lado do mundo
Tentando entender outras falas
Sou eu que construo o segundo
E o fim da história não acaba...


II O Passado


Nos restos de um povo sagrado
Panchamama
A deusa de tudo
Me pergunto
Que homens são esses?
Quais mistérios estão no passado
Que no presente são todos mistérios?
E esse povo tão mesclado
É da cultura inca que vivem, mas é na igreja que rezam
As ruínas, as cerâmicas, as casas sagradas...
Será que todos aqui conhecem seus passados?
Ou apenas esse guia, que estudou para contar essas histórias?
Mas se nas casas há ou touritos,
A arquitetura antiga,
Ocas de pedras baixas,
Há a tradição.
Há.
Mas com a culpa cristã.
Há.
O caminho de Puno para Cuzco é lindo.

III Súyang

33 anos, escritora sobre os amores, coreana, bonita, viaja sozinha
pelo mundo recolhendo depoimentos, há um ano, desde que sofreu de amor, se separou e caiu na estrada.
Conheci-a no ônibus. Almoçamos juntas.
Ficamos amigas de viagem.


IV Igrejas

Com todo o respeito por sua austeridade
Mas me dói o peito
Por mais linda que seja
Entrar numa igreja
Construída em cima de um templo
A destruição de uma cultura
A imposição de outra
Não é disso que se trata a espiritualidade
Em todas as épocas, por todo el mundo
Os homens aprendem e desaprendem
E assim vamos construindo a história...

V
E de repente, após um descompromissado carinho
A Lhama me ama!
E sem mim não quis ficar
Depois de muito brincar com a lhama
Disse: Tá bom, agora vai pra lá.
Mas ela não queria me largar!
Tentei me despedir
Ela me seguiu
Disseram que era meu cheiro
Será?
Me senti woody allen naquele filme que esqueci o nome agora
com aquele carneiro
A lhama se apegou
Tive que ser um pouco brava: “já deu lhama, tenho que ir”
Ela baixou a cabeça
Desistiu
Fragilizada, quase a levei comigo.
Mas tive que partir.


IV
No céu tem um rosto que chora
Memória que pouco durou
Semente plantada germina
Meu todo já se transformou
O rio que se distancia
Me faz encontrar outras fontes
Os pés viajantes sedentos
Tentando alcançar o horizonte
Se o mundo por fora é tão grande
Por dentro o medo desata
Sou eu o maior navegante
De um sonho que a vida acata.



CUZCO

I 19-05-2014

Você vai fazer a trilha sozinha?
Vou.
Que coragem!
Você também vai?
Sim.
Também é corajoso.
Mas eu sou homem.


II Coreana e Brasileira

Uma coreana janta com uma brasileira
E descobrem tantas semelhanças
Que uma aprende mais com a outra do que pensam.
Súyan, a viajante, tem um amor em cada parte do mundo
Renata se  fascina com as histórias
Comem e andam pela plaza.
Procuram fugir do turismo selvagem.
Encontram outra plaza.
Essa sem turistas - fora elas.
E no meio, um teatro de rua.
Se misturam.
É um show de comédia, meio tosca
A brasileira ri.
A coreana não entende.
Tá frio, vamos caminhar mais?
E no caminho encontram Mamani, 72, pintor
Católico fervoroso, vive da arte inca, dos 4 mundos espirituais
Dos símbolos sagrados
A brasileira se encanta com ele e compra um desenho
Pensa onde colocar
Enquanto a coreana conversa com Mamani sobre seu trabalho
El amor
Mamani: o que me desperta o amor é o ser, o caráter, não a aparência. Amo pelo coração, não pela mente.
Súyan anotou
Renata gravou
Pensaram em sair pra dançar
Mas se despediram na esquina
Estavam exaustas

IV
A natureza é a minha religião
E enquanto nela, choro de amor
Entendi
Seria eu também dos povos que sabiam valoriza-la
Sou da terra
E com os templos incas me identifiquei
Porque é pra fora e sincroniza com os astros
A terra, o sol, a lua.
Os 4 elementos
A vida pulsante
A água
O Deus que está dentro do coração e da mente
O espelho que revela seu interior
O campo energético  da Terra
Sou indígena disfarçada de judia


III Silvia

Uma grande mulher no pequeno corpo
Me fortalece
Me explica
Me compreende
A mulher nascida na floresta
Guia mística
Ensina que o cabeça deve estar sempre em direção ao sol



E o poder de eu estar aqui agora
Dessa maneira
Assim
Não existe o acaso
Ela vai andar comigo
Leu as folhas de coca pra mim
Meu passado, presente e futuro
Eu a abracei, emocionada
Agora ela é minha Panchamama
Tivemos uma linda manhã nos templos
Tão forte
Que precisei ficar um pouco sozinha
Para escrever simples

IV
Cuszo = umbigo espiritual do mundo




Água e serpente = sabedoria





VI

Limpa
Eletriza
Aduba
Desperta
Inquieta
Recicla
Rojo
Rubro
Vermelho
Sangre

VII A Turista

Esta tarde
Não consegui falar com Súyang
Mas achei um pouco bom
Hoje queria ser turista sola
Depois de tanta informação
Momento de reverberar
Em silêncio
E caminhar
Pelos museus históricos
As ruas...
“senhorita, compra!
Amiga, compra!
Compra!
Compra!”
Os incas foram destruídos
Mas geraram muita economia
Pra cidade
Que cresce mais que deveria
Las personas hacem hijos
Mutchos
Os campesinos deixam a agricultura
Viram artesões
E param de se auto-sustentar
Ahora dependem de plata
Compra! Compra! Mira! Mira!
E sí, compro algumas coisitas
Nem sei se vou usar
Com medo do frio na trilha de noite
Compro outro casaco, uma luva melhor que a minha
Meias melhores
Tapa nariz, tapa boca
O frio me amedronta
Me equipo para vence-lo.
Caminho mais
Saio do circuito turístico
Café com empanadas
Chocolate original de Cuszco
E...
Uma casa de dança folclórica
Na porta, uma enorme fila
Turistas de toda parte do mundo
A torre de Babel era pra ser ali.
Pero tambien soy turista!
Dane-se!
Entrei na fila
Vi o show.
Homens e mulheres dançam




Me encantei, assim como os coreanos na minha frente
Os franceses atrás
O inglês de um lado
E a mineira do outro.
Tantas histórias
Queria trocar ideia.
Mas...
Estão cerrados,
Ou de cabeça baixa olhando as fotos que tiraram durante o dia
Me fui.
Hippies tocam música na plaza
 “Olá, italiana!”
Era comigo.

VIII Insônia

É quando o pensamento vira obsessão e não te deixa dormir
Ou
Aquilo que você não resolveu invade seu pensamento na hora de dormir.
Ou
Calor, frio, calor, frio... Desejo de já ser de manhã. Conto as horas para o desayuno.

No sonho, a chica indígena quer tentar uma carreira na Cidade em vez de casar aos 17 anos, como acontece com todas as chicas campesinas. Mas se apaixona por un hombre mais velho de seu povoado, que quer muito um filho. Os dois vão para o sítio arqueológico conhecido como “el escorrega do amor”. Tempos depois a chica fica grávida. Vai ter que casar com el hombre, como manda a tradição. Mas a Chica não quer. Os dois se casam.

?

O quarto desse hotel não me agrada muito. Tá sem internet, pelo menos a TV tem canal a cabo. Pego o controle e viro rainha.

VALE SAGRADO

I CAMINHO PISAQ

Hoje estou muito emocionada
Cada vez entendo mais o amor
O amor por todas as coisas
E a vontade de compartilhar
O contato com a natureza
O caminho que leva ao interior
E os elementos cósmicos
Que se unem para nos ajudar
Coisas que a gente precisa ver além
E a inteligência mágica de um povo
Que um dia entendeu certas coisas



Silvia me diz: pede para a natureza que ela te dá tudo
Hermano! La naturaliza te dará tudo!
No caminho, me sinto realmente bem.
Rezo.
Hermano!
Rezo en la piedra
La piedra és fuerça
Mi alma se conceta com sú alma
Vi nas folhas de coca
Eu acredito em el amor
Não tenho dúvidas
Hermano!
Não tenho mais dúvidas
Eu já pedi.
Feche os olhos, peça, Hermano
Na montanha que está dentro de ti!
Ela é teu pilar
E te dará tudo.
Onde moram as respostas?
No tempo certo.



II teoria

Renata: Silvia! Entendi!
As montanhas dão para a gente, as faces!
Como as nuvens, figuras!
A gente vê nas montanhas um monte de faces.
São as pedras que desenham as faces pra gente
Os incas viam as faces e as pintavam nas cerâmicas
É daí que vem as faces das cerâmicas!

Silvia: Você comeu muita folha de coca hoje?

Renata: Nenhuma.

Silvia: Iiiiihhh!



III
Disse o sábio inca:
Se confiar na força da natureza e na sua força interior
O mundo te dará tudo
Mas é preciso confiar.
(Interpretação dos desenhos das cerâmicas encontrados nas ruínas de Pisaq)
Eu acredito!

IV
Eu acredito, porque tudo o que se liga com os cosmos
Seja em qualquer cultura ou religião
É real e verdade em mim
Porque me sinto um pequeno ser diante desse mundo
Esse grande mundo só tem a me ensinar
E eu acredito na força da mente
No desejo interno de trazer as coisas pra gente
Cada sábio, filósofo, religião, cultura com suas teorias
Se conectam com a essência primária, prioritária
De um todo invisível
Uma (de)ordem  de vida
Eu acredito que posso transformar
Só posso transformar
Se não, por quê e pra quê?
E libero as mágoas conversando
Com as pedras, com as águas do rio, do mar
Com as arvores, com a terra
Converso sim.
Mais inteira na pele
Mais intensa no corpo
Mais conectada com a alma
E tento enxergar o obscuro
E se nenhuma resposta tenho ahora...
Let it go!
Eu mais eu, sem medo de ser o que sou
sou melhor pra mim
E assim, para os meus





Onde moram as respostas?
No tempo certo.


OLINTAYTANBO



I
Sim! Há na pedra um rosto indígena!
Ele olha para o povoado!
Por que então os outros rostos esculpidos pela natureza
Não são também expressos no artesanato?
Ninguem me tirará essa ideia
Vou escrever um livro
Um tratado
Ou apenas nesse blog!
Sim! Essa construção tem 4 partes
O povoado
A agricultura
O sagrado
A moradia dos sábios
Linda pequena cidade no caminho do Vale Sagrado.

CAMINHANÇA



I
Amanhã começa a caminhança na trilha Salkantay
Quatro dias até lá.
Momento de sair da conexão virtual
Para continuar encontrando outras novas conexões
Daqui alguns dias, se conseguir expressar qualquer coisa em palavras
Retorno aqui.
Giane + Aide + Silvia = na caminhada esquece a dor, pensa positivo e acredita em ti mesmo.

Na caminhada esquece a dor, pensa positivo e acredita em ti mesmo!


=) (face encontrada no word! Ohhh!)


INICIO DA JORNADA PARA MACHU PICHU

A Trilha salkantay
Salkantay = montanha selvagem

Dia 1

I Duas mulheres na trilha



E vamos começar.
Estou ansiosa.
Quero caminhar, caminhar!
O lugar é lindo!
Me sinto uma princesa.
Tenho Silvia, Hilario o cozinheiro e um cavalo.
Sou una principesca.
Pero no.
Estamos em Mallepolca, perto da montanha salkantay
Embaixo da montanha womantay.
Womantay, soy jo
Mulher selvagem
Vai fazer a trilha sozinha? Que coragem! Disse o hombre do hotel.
Sí!
Pero no início de tudo, estou frágil.
Silvia, a guia, a grande mulher no pequeno corpo, não me dá mole.
Ela fala duro comigo.
Silvia: Renata! Não conversa agora! Renata! Tira esse casaco. Suar não é bom!
Ela é a guia ou a minha babá?
Tenho vontade de chorar. Quero fazer pirraça para a babá!
Não a quero mais!
Tragam um homem tranquilo pra mim! Silvia deve estar na menopausa....
Olho o caminho.... Que lindo!




Esqueço a Silvia.
E canto!
“Luz do sol”
E a Silvia olha pra mim.
E sorri!
Renata: Silvia, você é uma mulher muito dura.
Silvia: Aprendi a ser assim, Renata. Sou guia há 10 anos.
Impus meu respeito diante a todos. Para ser guia na trilha, as mulheres não podem ser frágeis. Você, Renata, não é frágil.
Renata: Não, eu não sou.
Silvia: Então me mostre. Tem que ser forte. Eu aprendi a ser forte!
Renata: Estou aprendendo com você.
Silvia: Isso! vamos descobrir agora, nesse caminho, só nós duas, nosso lado masculino, sem perder a feminilidade. Sou uma princesa guerreira.
Renata: Sim! Encontrar o lado masculino, sem perder a feminilidade.
Silvia sorriu de novo. Eu gosto quando ela sorri.
Silvia: Agora canta, porque seu canto está abrindo o tempo. Temos um lago para mergulhar.
Renata voltou a cantar, mas antes tiraram essa foto para selar a paz.
Eram duas mulheres na trilha






II O lago

Obrigada universo por eu estar aqui
É o caminho que nos escolhe.
A natureza é mesmo o meu lugar
Força sagrada
Arquitetura divina
Obra de arte
Que brota da terra
E nos diz tanta coisa em silêncio
Me ajoelho perante a ti
Evoco os Deuses
Me rendo à tua beleza
Rezo
Me curvo
Sou sua escrava,
Sua eterna discípula
És minha rainha ancestral
Panchamama
Wiracocha

Amém!



III O caminho

Tenho certeza que as montanhas olham pra mim!





Olham para todos
Muitas faces
Estou em silêncio
Me sinto só.
Mas não é verdade
Silvia está lá na frente
De vez em quando olha para trás, como quem pergunta se está tudo bem.
Ela me cuida, a Panchamama do meu caminho.
Penso em tudo. Tudo mesmo.
Em coisas até que pensava jamais pensar
Medito
E olho para todos os lados
Não canso de dizer
Que lindo
A beleza oprime o cansaço

IV O primeiro acampamento

Vou dormir entre dois paredões de pedras.
Atrás de mim, a montanha Salkantay
Chorei.
Estou sensível
E pedi LUZ
Para ele
Pedras, céu, rio, não deixem ele cair.
Iluminem o seu caminho!
Agora, aqui, sentada na pedra, com esse caderninho, olhando essas montanhas, respiro como quem nasce pela primeira vez.
Porque não é só uma vez que nascemos
As montanhas olham pra mim
As faces.
Um susto de vida
Os antepassados estão todos ali
Observam
É aqui que vou dormir.




Salkantay = montanha selvagem
Salkarenata  = Renata selvagem
Já sou daqui
As estrelas estão saindo.
Constelações incas
Vontade de gritar, uivar, correr

V Vento

Mas o vento...
O vento aumenta e corta a minha pele
Estou a 4.200 metros de altitude!
Lâmina invisível
Ele me desafia
Vem vento!
Corta-me!
Prenda-me!
Rompa-me!
Invada-me!
Hoje quero ser a sua mulher!
Vem!
Estou aqui!
A sua espera!
Venta-me!
Vem vento, me vesti pra você!
O rio gritou!

VI Estrelas

As estrelas são meu teto
Tenho tudo o que quero
Estou grande
Converso com elas
Choro de novo
Estou renascendo
As constelações incas me explicam
Sem palavras
Tudo o que já sei, mas não sei
Aí, agradeço ao universo
Por colocar as pessoas certas em meu caminho
Boa noite

VII dormir em 4.200 metros

E o frio,
O vento
O barulho avassalador do rio que corre ao meu lado
A chuva
É a morte que me chega e não me deixa dormir?
Sem ter pra onde ir, pra onde correr
Evoco um sonho erótico
Não vou dormir
Mas vou sentir prazer!
Desafio o tempo
Não sou mais frágil
Chove
Venta
Não quero hotel
Quero isso tudo sim
Quero sentir a presença
Dessa força toda
Não estou aqui a toa
Pode vir
Natureza
Você não é só flores
Eu sei
Eu também não sou só sorriso
Então vem
Que eu te enfrento

DIA II

I – eu sei subir sozinha

Atrasei a Silvia
Porque só consegui dormir na hora de acordar
Ela, a rocha, a exigente, a séria
Me desafiou
Silvia: você está cansada, não vai conseguir cruzar a montanha a pé.
Renata: Eu vou!
Silvia: melhor ir de cavalo
Renata: Não! Eu vou com meus pés.
Silvia: Ta bom. Mas se precisar, sobe no cavalo.
Renata: Não vou precisar.
E fomos
Silvia contrariada, Renata ego ferido, foi na frente, rápida, imponente, heroína.
Após um tempo.
Silvia: Desculpa, subestimei você. Você anda bem.
Renata: Você me ensinou a ser forte.
Silvia: Olha! Ta nevando!
Renata: meu casaco ta branco.
Silvia: temos que subir mais rápido
Renata: Bora!(tempo) Ih! Um condor!
Silvia: um condor! Parabens! Condor é sorte.
Renata: Então vamos!




Chegaram no ponto mais alto da montanha




E continuaram a caminhada

III A neve, a chuva, o frio, o vento






V Italiana


Acho que não sinto meu corpo
Andamos rápido
No caminho, passam por mim todos os tipos de estrangeiros
Olá, que tal!
Good morning
Hi!
Conheço Ravier, o argentine do interior
Ele me pede ajuda
Está no cavalo, não aguenta andar
Ayudo, tiro uma foto dele
Pego su coisas que caíram na tierra
Ele me agradece
Pergunta de onde sou
Brasil
Brasil?
Pensei que fosse italiana
Sí, todos pensam. Pero nasci em Rio
Rio! Que lindo! Cuepa del Mundo!


Pois é...

VI

Vou mais rápido que posso.
A neve nos alcança
Minhas pernas começam a doer
Desce
Desce
Desce
Finalmente uma planície
Mas é pior que as montanhas
As montanhas tem curvas e as pedras protegem do vento
E da chuva
Na planície não há nada
Nada!
O vento chega mais
A chuva aumenta
Quero abrigo!
Mas é preciso andar!
Me disseram que não choveria essa época
Mas se não podemos controlar a nós mesmo
Imagina controlar o tempo?!
Finalmente uma casita
É lá que vamos comer
Comer o quê?
Não posso parar
O corpo esfria
É pior
Vou congelar
Comemos sopa
Quinoa
Pollo
Nossa, Hilario! Usted é genial!
Mas não posso parar.
A chuva não vai passar
A neve está chegando
Toda a minha roupa molhada
A luva já não presta
O gorro também não
Silvia, vamos, por favor
Vamos!
Seguimos.
No caminho de barro

Descida de 1000 metros para baixo

VII  A descida

Descida de 1000 metros para baixo
Olhamos para trás e
Neve!
Para o lado
Nuvens
Vou despacio...
Bem devagar
Todos os estrangeiros correm na minha frente
Tudo bem
Podem ir
Minhas pernas começam a reclamar
Barro
Muito barro
Me pergunto
O que estou fazendo aqui?
Por que quero isso pra mim?
Lembro do quarto do hotel
Cama, cobertor, TV a cabo, café da manhã
O que faço aqui assim?
Aí lo tempo abre um pouco
Olho para o lado
E um lindo rio, uma linda montanha e na frente








Caminho
Aí me percebo
Nunca estive tão presente
Sentindo o meu corpo inteiro
Pés por pés
Tronco, cabeça, braços
Sim, estou molhada
Mas inteira! Inteira! Inteira!






São 20 kilometros para baixo
Já estou aquecendo
Silvia lá na frente
Os americanos arrogantes passam
E eu, inteira
Pele, músculo
O presente é um presente!
Sim!
Quero estar aqui agora!
Quero sentir
Enfrentar
Quero
Sou uma Guerreira Princesa
E não vou fraquejar!
Fui devagar até o próximo camping
Quando cheguei
Já era noite.


V QUETCHUA

Quando cheguei no camping, já era noite.
Toda molhada, com frio, sofri.
Mas esse camping tinha banheiro
Chuva
Hilario foi preparar a comida
Eu não sabia o que fazer
Parar me fazia sofrer
As roupas me cortavam a pele
Era como vestir gelo
Chuva
Aí vi a Flor
A dona do camping
A dona da casa
A dona
28 anos
Falava quetchua
Me viu sofrendo
Me levou pra sua casa
Me aqueceu no seu fogo a lenha
Me emprestou o seu casaco
Colocou pra secar minha blusa, sutiã, casaco, gorro
E eu, sentada em sua humilde cozinha
A observava
Flor! Gracias! Gracias! Gracias!
Chegaram dois amigos e seu marido
Todos falavam Quetchua
A língua inca
Estou maravilhada
A língua inca!
A língua, a maior preservação de uma cultura
Eles não compreendiam meu portunhol
Só me lembro
Estás sola?
Cadê tú nobio?
Su hijos?
É porque uma mulher no pequeno Pueblo
Não pode estar sola
Não pode não ter filhos
Uma mulher no pequeno Pueblo
No puede!
Mas eu sou uma mulher de fuera!
Me olhavam
Donde és?
Rio de Janeiro
Ohhhh! Copa!
Sí!
Mas não conseguiam falar mais que isso
Conversavam sobre mim em Quetchua
Lembrei dos meus avós falando árabe
Conversavam sobre mim em árabe
Eu era uma estranha de outro planeta na casa de Flor
Mas ela se apiedou de mim
Eu me apiedei de mim
Na caminhada, esquece a dor, pensa positivo, confia em ti mesmo
E coragem!
Guerreira princesa.
Levantei!
Gracias, tengo ir.
Flor: dorme com meu casaco
Gracias!
Fui jantar com Silvia num abrigo de pedra.
Hilario! Você é genial!
Ajudei Hilario.
Além de ajuda-lo, me movimento.
Silvia: Não coloca roupa seca, pois se continuar chovendo, você não terá mais nada.
Tudo bem. Respeito a Silvia. Vou dormir molhada
Mas!
Lembrei de uma calça de pijama, casaco da Flor.
Entrei na barraca.
Dormi, seca, sete da noite
Como uma pedra.
Sonhei com perros.


DIA 3

I Coragem

É preciso ter coragem.
Continua chovendo
Temos que decidir
A trilha está perigosa.
Pensei num carro me pegando ali em cima
Radio ligada
E dane-se
Me levem de carro
Mas não!
Vamos caminhar.
Silvia olhou a trilha
É perigoso
Então, o que hacer?
Vamos pela carreteira
E fomos estrada abaixo.








II Não posso!

Não posso andar!
Não consigo!
Dolor!
Silvia: você quer um carro? Eu dou um jeito.
Na caminhada, esquece a dor, pensa positivo, confia em ti mesmo e coragem.
Então!
Tomei dorflex.
No! Vamos seguir.
Aos poucos, o dorflex fazia efeito.
E eu segui na estrada.


III  Silvia também aprende comigo =)!

Renata: Uau! Silvia! Que caminho lindo!
Silvia: Pena que não estamos na trilha...
Renata: Não, Silvia! Não fala isso pra mim. Eu sou nova aqui, como um bebê. Estou olhando tudo como a primeira vez. Não conheço a trilha. Para mim só existe essa estrada. Então se você diz “pena” eu fico triste.
Silvia: Você tem razão, Renata. Desculpe. Para você só existe essa estrada. E sim, ela é linda mesmo.
Renata: que bom!
Silvia: Obrigada! Também aprendo com você.
Sorri! Ela também aprende comigo!
Seguimos. E eu não tinha mais dolor.
A estrada era realmente linda!

IV Detalhes



Não entendo os que andam rápido num caminho lindo
O caminho é em si o objetivo
O que me encanta são os detalhes.
A chuva parou!
Viva!
Podemos ver tudo.
Sentir o cheiro, olhar as flores.





É isso o que me importa!
Detalhe s de um ponto de vista.
As frutas nativas
O rio que corre lá em baixo
As flores enfeitando o caminho!
Ah!
Como eu gosto disso!
Verde, a minha cor preferida.
Canto.
“Senhorinha, moça de fazenda antiga prenda minha. Gosta de caminhar de chapéu sombrinha...”
Canto mais. Minha letra na melodia do Bruno.
“Toda palavra, tem uma alma
É como espinho e flor
Que vai
E volta com o vento
Sopra e transforma a dor.
Das profundezas, retorna a valsa
Que foi escrita além
Do som
Que invade o silêncio
Vibra e termina bem.”
Canto
“Se você quiser e vier comigo...
Eu te darei o sol
Quando o sol sair
E a chuva...”
Olho os meus pés.
Barro puro.





Confesso que gostei.
A presença do corpo invade as roupas


Silvia me mostra as frutas nativas
Me diz os nomes das flores
Como as frutas, cheiro as flores
Estou tão feliz...


V
No almoço da paragem
Reencontro Ravier e seus amigos Holandeses
São simpáticos
Estão todos quebrados
Não conseguem andar
Eu e Silvia comemos Llomo saltado
Hilário! Você é um gênio!
Gracias!
Hilário está feliz
A chuva passou de vez!

VI Alejandro, o pássaro!

Trabalha no camping Cola de Mono
O lugar que eu ia dormir.
Lindo!
Ao lado de um rio
Mata que parecia Atlantica
Me senti na casinha de Boa...
Saudades.
O cheiro da mata fechada
Mudança total de paisagem
E o sol!
Eu sabia que ele ia sair!
Depois da chuva...
Hahaha! 
Eu sabia!
Ele ia chegar!
“O  sol na cabeça”
Me disseram que ali tem uma tirolesa
Alejandro! Jo quiero!
Alejandro: sí, Renata! És uma experiência única.
Renata: entoces, vamos ahora!
Eu queria voar ao lado do sol!
Fomos eu, ele e Tânia, a fotógrafa e funcionária do Camping.
Subimos uma trilha.
Eu ainda estava com o corpo quente
Subi rápido.
No caminho, arvores de café e coca.
Comi o fruto do café.
É bom!
Alejandro é de Lima e adora Teatro
Conversamos sobre os autores de Lima
Tânia é argentina de Mendoza e adora aventura
A tirolesa tem 2600 metros com 6 bases, na qual cruzam as montanhas e o rio.
Confesso que morri de medo na primeira
Alejandro me dá uma aula
Eu penso: coragem!
Alejandro vai na frente.
Ele vira de cabeça para baixo.
Faz piruetas no ar!
Um pássaro!
Tania fica com a minha máquina. E vai também.
Vai, me empurra, antes que eu desista!






E voei!
Uma vez, duas vezes, três vezes, quatro vezes.
Nas ultimas duas bases, Alejandro me estimula a fazer o vôo do pássaro.
Eu abriria os braços e ele me guiaria
Como parapente sem o parepente






Voei mais!
Sim! Era realmente um dia feliz.





VII Águas Termales de Santa Tereza

Silvia me esperava ansiosa no camping com Hilário
Pra gente ir às aguas termales.
Mas eu gostei tanto do camping...
Pensei em deitar na grama
Ler um pouco
Olhar o rio...
Não sei...
To gostando daqui
Silvia: tudo bem... pero...
Perguntei à Tania se deveria ir
Ela disse: SIM!
Com letras maiúsculas mesmo!
Então fui. Claro!
Quero tudo!
Pegamos uma van.
Lindo caminho ao lado do rio, entre as montanhas
Me arrependi de não ter levado a máquina
Chegamos
Uou!
Tres piscinas naturales
Com águas calientes. Mutcho calientes!
Era a glória!
O banho sagrado dos deuses.
A recompensa dos caminhantes
O presente é um presente.
Três piscinas
Reconheci todo mundo que encontrei na trilha
Achei engraçado
Ate pouco tempo, todos camuflados de roupas de frio
Como astronautas
Lameados, sujos...
Agora, um balneário
Roupas de banho, toalhas...
Inclusive eu!
A piscina da direita estava lotada
A da esquerda também
Escolhi a do meio
E virei rainha.
Relaxei.


VII Daniel, o americano

Sim! Achei mesmo os americanos que passaram por mim na trilha
Arrogantes
Todos os outros estrangeiros
Uma delicadeza...
Mas os americanos, heróis da máquina mortífera
Se bastam
Não precisam de ninguém
Muito menos de educação
E Súyoung também acha
E Silvia também
Mas eis que...
Eu tava parada
E parada, chamei a atenção de algumas pessoas
Na piscina, quietinha, olhando a torre de Babel
Vieram hablar comigo
Os locais: Estás sola? Es de onde?
E eu já tinha uma resposta pronta
Ouvi muito isso, o tempo todo
Os franceses: usted és italiana?
Where are you from?
Conversei com Lea e seu namorado
Eram franceses.
Lea disse que parecia que me conhecia de seu bairro na França
Eu ri e gostei
Não sabiam falar inglês direito
Como eu
E então nos entendemos assim
Disse que era brasileira do Rio
Eles me contaram como era viver na França
Tentamos nos comunicar
Mas tava difícil
Meu inglês tá péssimo
Preciso reaprender
Nos despedimos
Nadei para outro lado
Queria morar ali
A água curou minha dor na perna
Tava olhando o céu
O americano se aproximou
O americano: Ouvi você falando. Você é da onde no Brasil?
Eu: Rio de Janeiro. E você?
O americano: Estados Unidos, Califórnia.
Eu: E fala bem o português.
O americano: Viajei pelo Brasil 5 meses
Eu:  Deve conhecer o Brasil mais que eu.
Ele me disse onde esteve.  Conhece mesmo mais que eu.
O americano: E também no carnaval do Rio.
Eu: Carnaval. Claro! Também gosto, mas aproveito também para viajar.
E começamos uma conversa leve.
Esse americano não me pareceu arrogante. Talvez porque morou 5 meses no Brasil e agora estava há 3 meses no Peru. Já conseguia ver além, outras coisas, estava só, em contato com as pessoas de lá, com os pueblitos em seu caminho. Talvez também porque trabalha numa ONG de ajuda mútua para os países de terceiro mundo.
O americano: Seu nome?
Eu: Renata. E o seu?
O americano: Daniel.
Daniel: Me sinto culpado de estar aqui desfrutando isso.
Renata: Não se sinta. Como disse Silvia, minha guia (apontei ara Silvia). Se você está aqui, não é a toa. Usa essa força que tem aqui para continuar seu trabalho.
Daniel: É verdade. Você também!
Renata: Pode deixar.
Tava na hora de eu voltar pro camping.
Daniel: Prazer. Boa viagem!
Renata: Sorte!
E fui.
Daniel não é arrogante. E eu fiquei aliviada. Não se pode generalizar nada nessa vida.
Voltei para o camping no meio da mata. Um silêncio de fazer dormir como um bebê.

VII Tânia

Uma mulher que vaja sola
E vive de aventura
Trabalha no camping
Na terra e no céu
Adora rafting
Adora a natureza
Nos identificamos
Como eu
Todos perguntam para ela
Estas sola?
Sabia,Tânia, não esperava ouvir tanto essa pergunta
É que os homens daqui são conservadores
E te acham corajosa
Como você!
Sí! Tambien.
E ela não vai voltar tão cedo pra casa
Como eu.
Ela gosta do que faz
Eu também.
Gosta de sair por aí
Trabalhando na natureza
Eu falei o que me fez estar ali
Ela me deu o endereço de seu blog


VIII
O que me fez estar ali
Como o fim de um ciclo
As três viagens
Amazônia. Patagônia. Peru.
As três pontas de um lugar em mim
Que está regenerando
E não estoy sola
Tania me disse
Você tem a ti mesma
Tenho a mim mesma
E o meu interior está cheio de segredos
E sentimentos
Que me fazem seguir

IX
Conheci também Marco
O dono do camping
E idealizador da Tirolesa
Parabens, você é demais!
Foram 3 meses construindo a tirolesa
Todo seu investimento
Pero ahora!
Uou!


X

Sambei para Silvia
Olha, Silvia! Posso ser uma mulata!
Silvia gargalhou.
Drey, o funcionário do camping também
E me convidou para ir a uma festa
Vamos bailar, Renata!
Estava exausta
Mas quero tudo
Subi em sua moto
Fomos
Chegamos num lugar aberto
Mas a música não tava boa
Eu queria musica local
Me senti na academia de ginastica
Os estrangeiros bebendo feito adolescentes
As mulheres locais admirando os blancos
Drei, quero voltar para o silêncio do camping
Está bien. Regressamos.
Subi na moto
Drei me contou da sua história
Adora a natureza e por isso trabalha no camping
Também não gostou da energia do lugar
Pediu desculpas;
Tranquilo, Drei.
Estou exausta mesmo
E há muito tempo que não ando de moto
E me gusta o vento.
Chegamos no camping. Gracias!
Aí sim
Rezei para o céu, agradeci
E dormi como um bebê.

DIA 4

I
Na despedida do camping recebo uma cartinha de Tânia.
“Viajar nos es escapar. Viajar es encontrarse!
Muito prazer em conhecela!!!
Mi direccion de facebook es:
Tanu Ye
Y mi página de fotos: fotosíntesis
Buena Viajes
Disfrute a energia de Machu Picchu
Tânia.

II
E tirei essa foto com Alejandro e Tânia.




III O trilho do trem



Estava sol quando começamos a seguir o trilho do trem para Águas Calientes



Antes me despedi de Hilário!

Obrigada! Você é genial.
Uma foto para nunca te esquecer!





IV Canção 1
Nos trilhos do Trem me encontrei e me perdi





Um cantinho pra ouvir

Que me fez meditar
Na tristeza de um olhar
Na beleza de um lugar
No pedaço de ilusão
Que invadiu meu coração
E eu aqui a caminhar

Dá vontade de chorar
Depois rir de tanto ir
Como quem sabe onde vai
Mas no fundo nunca sai
Vou andar pra não partir

Se é pra agir ou pra falar
Nunca vai se decidir
Então ora essa canção
Pois que nunca vai parar
De buscar um jeito 
De encontrar
O acolhimento da pedra
Que é o mesmo que a pele
A me abraçar

Descansar de tanto amor
E depois mergulhar
Nesse rio que ensina
Que dando voltas no mesmo lugar
Pode até sair do rumo
E chegar
Pra um dia regressar
Se precisar








V Canção 2
E a pedra olha pra mim, olha sim



Cara na pedra
Pedra na cara
Beleza rara
Que não me enganou

Sei que tu olhas bem longe
E sabe de tudo
Que o inca pintou
Teu rosto no barro
Pra aqueles que não te veem nos olhos
Quiçá nos museus
Espelhos de seus corações

Nos templos estão tão presentes
Mas no caminho só quem te sente
Já sabe o que quer

Sim, sou prepotente
Me sinto sua companheira
De alma inteira
A sua mulher

Se já casei com o vento
O traio por ti
Pra me proteger
Com suas fortes paredes
A rocha que sente
vibra e golpeia 
com a força do tempo 
Tú és acalanto
Meu alento
Meu canto
Pois também me espanto
Ao te ver às vezes tão séria
Tú es a matéria
Do meu samba enredo
Por ti faço escola
Por ti minha perna de tanto andar
Vai doer
Mas vai sorrir
Quando meus olhos pararem
Nas suas faces
Doces e duras
Que  me conduzem
Ao altar
De suas fontes
Ao mistério de seus montes
Ou o lugar mais histérico
E ao silencio da tarde
Que me invade
E me faz te querer

Até morrer
De tanto viver


VI MACHU PICHHU

Cheguei!




Por tudo o que passei
Por tudo o que vivi
Foi por ti!
Machu Picchu!
O sagrado, a moradia, a militância, a agricultura
Silvia me guiou por el labririnto sagrado
Por el tierra protegida pelas montanhas
Pela cidade cósmica
Por toda a vida
Exausta, me pus a andar por entre as colunas de Pedra






Silvia me explicando cada detalhe
E eu tentando absorver
Sem entender
Todas as sensações ocultas
Catartizando
Catequizada pelos Incas





E ao meu lado o mundo todo
Fotografando


VII  A despedida de Sílvia

E era hora de Sílvia se despedir
Eu ficaria mais um tempo ali
Digerindo toda a informação
Também queria deitar um pouco entre
As escaleiras
Para descansar de tudo
E observar
Gosto de observar
Levei Silvia na saída
Nos abraçamos
Renata: Silvia, muito obrigada por tudo!
Silvia: Obrigada você pela oportunidade
Renata: Desculpa qualquer coisa
Silvia: Imagina! Desculpa você qualquer coisa!
Nos abraçamos de novo
Um abraço forte
E Silvia se foi
Senti um vazio 
Um vazio tão grande
Fiquei sem saber o que fazer.
Tomei um sorvete
Era uma reposição
açúcar, gelado, calmante
Sentei na lanchonete de fora
Lotada
Tomando sorvete
Observando a Babel
Voltei para o Sítio





Sem a Sílvia
Agora estava sola
Cansada
Mas feliz
Estava lá!
No objetivo
Mas objetivo
Passou a ser apenas uma consequência
De todo o vendaval de sensações
De todo o passo a passo
Que é um renascer a cada curva
Chorei
E dormi
Ouvindo todos os tipos de línguas
Casais, famílias, grupos, amigos...
Eu
Dormi na pedra
Um argentino parou ao meu lado
e me perguntou se podia tirar uma foto minha
dormindo
Ri
Para quê?!
Estou escrevendo as impressões sobre a minha viagem
E te ver dormindo aqui, me encantou
Ri
Também estou escrevendo as impressões da minha
Então deixa eu tirar uma foto da sua máquina
Está bem, mas agora dormir vai ser forçado
E qual é o problema disso?
Tudo bem.
Dei minha máquina para ele
E ele tirou essa foto



O fiscal me chamou
Era hora do sítio fechar
Fui para o hotel
E dormi até o dia seguinte

SOLA EN MACHU PICCHU, PERO NO

I
No dia seguinte retornei cedo para lá
Estava sem a Silvia
E estranhei a solidão
Estás sola? Que coragem!
Era a pergunta que mais ouvi nessa viagem
Uma pergunta que não era uma questão pra mim
Quando decidi viajar
Decidi e pronto
Não havia companhia na hora
E não deixei de viajar por causa disso
Não me senti corajosa por isso
Só queria caminhar na natureza
Me dar esse mimo
Vivenciar novas paisagens
Num lugar místico e sagrado
E valorizar uma outra civilização
No pedaço de terra onde habito
A América Latina



II Machu Picchu Montain

Havia dormido muito bem
E estava renovada
A multidão de turistas me assustou mais que esperava
Havia uma saída
A Machu Picchu Montain
Que já havia comprado o ticket para estar lá
E a subi
Estava sola
Mas a cada paragem
Porque não tinha pressa nenhuma para subir
Porque já estava no lugar onde cheguei
Porque minha perna ainda doía um pouco
E porque gosto de observar a paisagem 
Mas a cada paragem
No estava sola
Entendi
No movimento estou sola
Parada, o mundo vem a mim
A cada paragem alguém fala comigo
E inciamos uma conversa.
E eu aprendo um pouco mais da vida
De cada um
E entendo certos objetivos
E me admiro com pessoas ligadas em algo mais
E vivencio
E todos me perguntam se querem que eu tire um foto minha
E e digo que sim, porque não?
E esta manha cheguei sola em Machu Picchu
Só que não! 
Minha fotos tiradas pelos viajantes
Gracias americano, franceses, equatoriano, japoneses...










E DORIVAL CAYMMI ME SINTETIZA COM ESSA CANÇÃO

https://www.youtube.com/watch?v=A1tUZ-AWjZ8